Gostaria que todos morressem, era o que eu pensava, até morrer.
Minha infância foi igual a todas as outras do bairro pobre de onde eu vim. Nós, vitimas da depressão que derrubou toda uma economia e status, trazendo consigo um ódio que para alguns solucionados com um suicídio rápido, para outros descontados em terceiros. Eu.
Apanhava por qualquer coisa, até quando a culpa não era minha, era culpado de muitas coisas, mas nem sempre era eu que fazia. Porem era eu, ou meu irmão menor.
Ser vitima da falência não era culpa dele, muito menos minha, mas seria mais doloroso para ele que não entendia bulhufas sobre a vida, eu tinha quatorze anos, mas a vida doía mais a cada dia, me fazia mais homem a cada vez que apanhava, era mais homem as vezes mais de uma vez por dia.
A raiva crescia, em imaginar que nada era como estava nos tempos de hoje, que ele era meigo, que ele me amava. Eu o odiava, queria que ele morresse logo, isso se transferiu para tudo que se movia. Tudo deveria morrer, porque assim como ele, tudo mudara e nada era como antes, nada seria como antes, mesmo se voltasse ao normal, a vida mostrou a verdadeira face das pessoas ao meu redor, todas podres, cheias de ganância, cheias de tristeza, elas fediam a inveja, queriam acima de tudo serem felizes, mas estavam dispostas a pisar na própria mãe, na própria mulher para conseguirem tudo de volta.
É estranho pensar em que o desespero causa e a causa nunca é a mesma, mas a reações são, porem estava cansado de tudo, mas não tinha forças para mudar ao meu redor, quem dera o mundo, não sabia o que fazer. Então tive uma estúpida idéia, tentar suicídio. Apenas tentar, fazer com que meu pai visse como estava magoado com tudo que causara, por toda tristeza que trazia alem da dele por ser tão impotente nesses tempos obscuros da grande depressão. O nó estava muito bom e a cadeira foi bem chutada, a corda era boa, tudo estava ao favor de uma bela encenação.
A porta se abriu, eu já estava prestes a morrer. Os últimos instantes que presenciei, era o olhar de meu pai. Seu desespero superava a grande depressão e de todos aqueles que viveram aquele momento, vi suas lagrimas e sua angustia, via seu arrependimento, senti que ele passou esses anos mais perdido que eu, que meu fardo seria apanhar, pois ele não faria isso em nada, não descontaria sua falha, sua vida falha, pois tudo para ele antes era a família, e tudo ficaria em família, via que quem estava errado era ele, meu pai, eu não sabia que isso já era de conhecimento dele. Ele me pediu perdão. Estava arrependido, era tarde demais. Gostaria que todos morressem, era o que eu pensava, até morrer. Até perceber que todos gostariam de estarem mortos ao ver aqueles que amam morrerem aos poucos corroídos em meio a tanta maldade imposta pela vida.
